Crônicas

O limbo da dúvida

Nada mais shakespeareano que estar diante de uma encruzilhada. Ter que decidir para onde ir, o que fazer. Sem verborragia, sem teorias ou viagens intelectuais.

Tudo resumido na questão mais famosa da humanidade: ser ou não ser.

Escolher o caminho que leva a ser, evitando onde não seremos.

Aparentemente simples mas verdadeiramente muito complexo.

Não somos e queremos ser ou somos mas queremos ser diferentes? Onde seremos e onde não seremos? No lugar onde não somos será que não há nada em que seríamos se o aceitássemos?

Ir por um lado e não pelo outro implica em abrir mão de futuros incertos mas não necessariamente ruins. Apenas diferentes.

Mas como saber em qual deles está o melhor futuro se nunca foram percorridos? Se a respeito deles nada se sabe, qual optar? As dúvidas se amontoam à nossa frente e variam a medida que o tempo de indecisão cresce.

Buscar o novo é realmente essencial? Não seria melhor ficar onde está e conviver com os demônios já conhecidos? Porém permanecer onde está não seria continuar não sendo?

Escolher o caminho é abrir-se para o novo mas implica, eventualmente, em renunciar a algo. Deixar para traz uma parte nossa, mesmo que seja algo caro a nós. Abrir mão de nossas certezas presentes, boas ou ruins.

Não há dicas, não há spoilers. Não há como antecipar. Nem garantias que o caminho é firme. Nem companhia.

Toda decisão de encruzilhada é solitária. Para percorrer o caminho escolhido levamos pouca coisa, para o passo ser leve.

Nossa bagagem de viajante traz a visão que temos das coisas, a coragem adquirida com a vida e os medos que ainda não nos livramos.

Mas nem sempre é suficiente para garantir a escolha certa.

Robert Frost, no belo poema “O Caminho não escolhido”, apresenta sua solução poética:

Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo,

E, lamentando não poder seguir os dois,

E sendo apenas um viajante, muito tempo eu fiquei parado

E olhei um deles o mais distante que pude

Até que se perdia na mata;

Então eu tomei o outro, como sendo o mais merecedor,

E tendo talvez melhor direito,

Porque estava gramado e queria ser usado;

Embora os que por lá passaram

Os tenham realmente percorrido de igual forma,

E ambos ficaram essa manhã

Com folhas que passo nenhum pisou.

Oh, guardei o primeiro para outro dia!

Embora sabendo como um caminho leva para longe,

Duvidasse que algum dia voltasse novamente.

Direi isto suspirando

Em algum lugar, daqui a muito tempo:

Dois caminhos se separavam em um bosque amarelo, e eu…

Eu escolhi o menos percorrido

E isso fez toda a diferença.

Na paisagem silenciosa do bosque amarelo de Frost a dúvida sopra suavemente vindo dos dois caminhos. O poeta seguiu seu rumo mas deixou dúvidas para o leitor atento:

Menos percorrido por quem?

Menos percorrido por que menos atraente?

Menos percorrido por que mais seguro?

Ou menos percorrido por que mais audacioso?

Caminhar na corda-bamba das indefinições. Não saber se ainda é ou se já foi. 

O limbo da dúvida é o pior dos mundos.

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Fernando Neves

Fernando Neves é carioca, nascido em 24 de setembro de 1965, na cidade do Rio de Janeiro, RJ, Brasil. Mora na cidade de São Paulo, continua Tricolor de Coração, é separado duas vezes e tem filhas gêmeas do segundo casamento. Jornalista profissional, desde os tempos no Colégio Pedro II sempre se interessou pelas letras, seja como leitor ávido seja como aprendiz de escritor. O jornalismo abriu a oportunidade de escrever e praticar mas não foi suficiente para seu desejo de escrever cada vez mais. As opções de forma são a mininovela e o conto. O estilo adotado pelo autor compreende um arco que inclui suspense, humor, conspiração e realismo fantástico. Semanalmente ele exercita sua paixão pela crônica e poesia publicando em seu instagram @fernandonevesescritor.

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